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22 de janeiro de 2007

Pró-americanismo 

por Ana Gomes

A virulência de alguns ataques contra mim, por causa da investigação sobre os voos da CIA em Portugal, não me surpreende. Nem desanima.

Como aconteceu em 2003, quando me opus à invasão do Iraque - e merecerei algum crédito por ter contribuído para essa posição do PS - há duas acusações que sempre são tiradas da cartola por quem tem falta de argumentos: o meu passado maoísta entre 73 e 75 (que nunca escondi); e um suposto "anti-americanismo".

Ora a verdade é que, apesar de muito crítica e alarmada pela catástrofe global em que a Administração Bush ajudou a mergulhar todo o mundo, "ich bin eine New Yorkerin", como escrevi em 12 de Setembro de 2001 ao meu colega e amigo Bob Gelbard, então Embaixador americano em Jacarta. Fui "americana" quando o horror de 11 de Setembro se abateu sobre Nova Iorque, sentindo que aquele ataque era não só contra os EUA, mas também contra a Europa e o mundo civilizado.

Sou pró-americana quando leio as conclusões do 'Grupo de Estudo sobre o Iraque', liderado por James Baker e Lee Hamilton, que apela a uma ofensiva diplomática séria no Médio Oriente, envolvendo o Irão, a Síria e o conflito israelo-árabe. Em resposta, esta Administração fugiu para a frente e, tal como largou o Afeganistão para mergulhar no atoleiro iraquiano, atira-se agora para uma perigosa escalada com o Irão. A imprensa israelita revelou esta semana que israelitas e sírios conduzem há dois anos contactos informais para um acordo de paz sobre a questão dos Montes Golã, mas qualquer possibilidade de negociações formais tem esbarrado na luz vermelha de Washington.

Sou pró-americana quando leio as declarações do Senador Joe Biden, Presidente da Comissão de Relações Externas, sobre a escalada de confrontação com o Irão, lembrando à Administração que o Congresso não tolerará o alargamento da guerra no Iraque aos vizinhos.

Sou pró-americana quando leio um extenso artigo no Herald Tribune (13/14 de Janeiro) do eminente especialista americano em questões de segurança e defesa, Anthony Cordesman, que desconstrói o novo 'plano para a vitória' no Iraque dos neo-conservadores que restam a Bush. Cordesman sublinha que, tendo em conta a negligência a que os EUA votaram o Afeganistão e a Al Qaeda a nível global, "a Administração Bush parece não ter nenhuma estratégia para a 'outra' guerra no Afeganistão, ou mesmo para a guerra global contra o terrorismo".

Sou pró-americana quando partilho a angústia do colunista Frank Rich (Herald Tribune, 15 de Janeiro), sobre o perigo de esta ofensiva de Bush no Iraque só adiar o inevitável e visar passar a derrota para um próximo Presidente - provavelmente um Democrata.

Na minha última contribuição para esta coluna (ainda em 2006) reiterei aquilo que tenho por fundamental: "os EUA precisam da Europa e vice-versa." A Europa sozinha não consegue lidar com os desafios globais defrontados pela nossa geração (terrorismo, proliferação e desarmamento de ADM, genocídio, crime organizado) e não vejo outras grandes potências, como a Rússia ou a China, mais dispostas a tomar decisões e acções acertadas.

Guantánamo, as 'rendições extraordinárias', a invasão irresponsável do Iraque e outros crimes desta Administração já constituem um capítulo negro na história dos EUA. E a História julgará severamente aqueles que até ao fim pactuaram com eles. Só se os aliados dos EUA lhes falarem com franqueza e sem subserviência acrítica é que os ajudarão a regenerar-se dos tremendos erros desta Administração. Só assim se reforça a Aliança transatlântica, só assim se defendem os valores em que ela se funda. E só assim é que a Aliança vale a pena.


(artigo publicado no COURRIER INTERNACIONAL em 19.1.2007)

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